domingo, 19 de julho de 2026

Apreensão de 13 toneladas de cocaína na Espanha expõe um cartel fantasma com conexões globais

 A apreensão recorde de 13 toneladas de cocaína na Espanha revelou um cartel global clandestino que conecta um parente da família real, Wall Street, bancos *offshore* e um chefe de polícia corrupto.


A maior apreensão de cocaína já registrada na Espanha expôs uma extensa rede internacional de tráfico de drogas e lavagem de dinheiro, envolvendo, supostamente, executivos, funcionários do setor bancário e figuras do governo.

Conforme revelado pela Bloomberg em uma reportagem detalhada, no centro da investigação está uma rede altamente complexa que envolve, supostamente, um oficial de alto escalão da polícia espanhola, empresários com conexões em Wall Street, uma empresa irlandesa de tecnologia financeira, bancos *offshore* e proprietários de imóveis de luxo em Dubai. Um parente distante do Rei da Espanha também estaria implicado no caso.

Os detalhes contidos nos documentos judiciais preliminares das autoridades espanholas descrevem um cenário que parece roteiro de filme de Hollywood. No entanto, segundo a Bloomberg, os investigadores acreditam que esta é uma das estruturas criminosas mais sofisticadas e organizadas já descobertas na Europa nos últimos anos.

Espanha: a apreensão de 13 toneladas de cocaína que expôs a rede


Tudo começou no outono de 2024, quando uma remessa vinda da América Latina chegou a um porto no sul da Espanha. Oficialmente, a embarcação transportava bananas. As autoridades espanholas, porém, descobriram aproximadamente 13 toneladas de cocaína — a maior quantidade já apreendida no país. O valor da carga foi estimado em centenas de milhões de euros, e as investigações subsequentes revelaram uma extensa rede financeira que, segundo os promotores, era utilizada para lavar o dinheiro proveniente do tráfico de drogas.

No centro da investigação está Ignacio Torán, apontado pelas autoridades espanholas como o líder da organização criminosa. De acordo com documentos judiciais, Torán havia criado uma rede complexa de *holdings* na Espanha e no exterior que, embora parecessem pertencer a "laranjas", eram, na realidade, controladas por ele.

No momento de sua prisão, ele já mantinha dois grupos empresariais em operação e se preparava para lançar um terceiro. Ele permanece em prisão preventiva na Espanha, enquanto seu advogado não quis comentar as acusações. Os 20 milhões de euros escondidos nas paredes

Um dos aspectos mais marcantes do caso envolve Óscar Sánchez, que, na época da grande apreensão, chefiava a unidade de combate à lavagem de dinheiro da Polícia Nacional da Espanha.

As autoridades alegam que, em vez de combater redes criminosas, ele usou seu cargo para proteger traficantes de drogas. Durante uma busca em sua residência, agentes teriam encontrado cerca de 20 milhões de euros em espécie escondidos nas paredes da casa, segundo a imprensa espanhola.

Seu advogado de defesa não contestou o fato de que grandes quantias de dinheiro foram encontradas, mas argumentou que algumas das provas — incluindo mensagens eletrônicas — foram obtidas sem a necessária autorização judicial.

O parente do rei e o investidor americano


Muita atenção tem sido dada ao suposto envolvimento de Francisco de Borbón, filho de um duque espanhol e primo distante do rei Felipe VI. Segundo os investigadores, de Borbón trabalhava com o investidor americano Ketan Seth, que vive em uma mansão de luxo em Newport Beach, na Califórnia.

Os dois fundaram a Alpha Trading em 2012, apresentando-a como uma empresa internacional de comércio de matérias-primas com escritórios em Nova York, Madri e Miami.

As autoridades espanholas alegam que a empresa foi usada para movimentar fundos pertencentes a Torán, provenientes de contas *offshore* em um banco do Panamá, como parte de um esquema complexo de lavagem de dinheiro. Nenhum dos dois foi formalmente acusado até o momento. Seth foi intimado a depor em setembro e solicitou a revogação de um mandado de prisão internacional emitido contra ele.

A conexão com Wall Street

A investigação ganha uma dimensão ainda maior com a revelação de que Seth e de Borbón fundaram a Blue Acquisition Corp. em 2025 — uma empresa de aquisição de propósito específico (SPAC) voltada para investimentos em centros de dados e inteligência artificial.

O ex-general americano Wesley Clark assumiu o cargo de presidente do conselho da empresa. A companhia captou cerca de 200 milhões de dólares por meio de uma oferta pública e avançou com um acordo para adquirir um centro de dados em Niagara Falls.

O banco de investimento BTIG participou da abertura de capital na bolsa, e grandes fundos de *hedge* figuram entre os principais acionistas. No entanto, as autoridades espanholas não citaram nem acusaram a Blue Acquisition de qualquer atividade ilegal. Seth deixou a empresa em junho de 2025, alegando oficialmente "motivos familiares", enquanto de Borbón encerrou suas atividades como consultor especial alguns meses depois.

Imóveis de luxo em Dubai

Investigadores acreditam que Torán havia investido uma parcela significativa de seus recursos no mercado imobiliário de Dubai.


Entre as propriedades identificadas está uma villa de luxo avaliada em cerca de 10 milhões de euros no complexo W Residences, em Palm Jumeirah, além de outros imóveis na mesma cidade avaliados em aproximadamente 11 milhões de euros milionário.

Em conversas interceptadas, Torán supostamente se referia a essas propriedades como “minhas casas”.

De acordo com a polícia espanhola, a rede utilizava tanto moedas tradicionais quanto criptomoedas para movimentar dinheiro.

As transações eram realizadas via Bitcoin, Tether e a moeda digital VXL Dollar, enquanto os fluxos financeiros passavam por bancos e estruturas financeiras no Panamá, Irlanda e São Tomé e Príncipe.

As autoridades estimam que, no momento de sua prisão, Torán possuía pelo menos € 10 milhões em Bitcoin, embora não tenham conseguido apreender os ativos digitais.

A fintech irlandesa e os “bancos aninhados”

Também central para a investigação é a ET Fintech Europe Ltd., uma empresa irlandesa na qual de Borbón e vários outros suspeitos estavam envolvidos.

As autoridades espanholas alegam que a empresa estava sob o controle direto da organização criminosa.

Sua acionista e diretora, Alina Bernard, rejeita veementemente as alegações, ressaltando que a empresa foi criada exclusivamente para desenvolver uma plataforma de banco digital e que está cooperando plenamente com as autoridades.

A investigação também faz referência a duas entidades em São Tomé e Príncipe que se apresentavam online como bancos, apesar de não estarem registadas junto da autoridade reguladora competente.

De acordo com os investigadores, operavam como os chamados “bancos aninhados”, utilizando contas mantidas em bancos maiores para ocultar as verdadeiras identidades dos seus clientes.

A segunda grande revelação

Os investigadores afirmam que a análise das comunicações de Sánchez revelou que, entre 2020 e 2024, foram contrabandeadas mais 58 toneladas de cocaína para Espanha — para além das 13 toneladas apreendidas em 2024.

Com base em estimativas de especialistas, o valor de mercado de tal quantidade poderá atingir cerca de 3,5 mil milhões de dólares.

A professora de Segurança Global da Universidade de Oxford, Annette Idler, observa que as organizações criminosas modernas sobrevivem precisamente porque exploram empresas legítimas, instituições financeiras, estruturas empresariais e profissionais de finanças para ocultar a origem de fundos ilícitos.

Como ela observa, a “zona cinzenta” entre a economia legal e a ilegal tornou-se o ambiente em que as organizações criminosas internacionais mais sofisticadas operam e prosperam.

Até o momento, os principais indivíduos envolvidos foram designados como suspeitos no âmbito de procedimentos preliminares, sem que acusações formais tenham sido apresentadas, enquanto a investigação das autoridades espanholas continua com o objetivo de desvendar toda a rede financeira supostamente responsável pela movimentação de bilhões de euros provenientes do comércio global de cocaína.

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