O aperto na fiscalização do porto de Santos (SP) empurra operadores do tráfico internacional de drogas a diferentes terminais marítimos do país. Os portos do Norte e Sul do País são os novos caminhos buscados pelos negócios encabeçados pelo PCC (Primeiro Comando da Capital) e pelo CV (Comando Vermelho). Além dos grupos organizados brasileiros, os esquemas encontram reforços no exterior com duas máfias europeias, uma italiana e outra albanesa.
Os esquemas movimentam bilhões de reais e incluem uma complexa cadeia criada e constantemente alterada para driblar a fiscalização aduaneira. Contam com mergulhadores, funcionários de empresas de logística cooptados e equipes especializadas em adulterar contêineres.
O porto hoje tem 17 scanners, cobertura de videomonitoramento com 4.400 câmeras e um esquema de segurança com drones e captação de ondas de calor que acompanha a movimentação no terminal. A Folha esteve no local no início de agosto.
Isso não significa que o porto esteja blindado. Uma das vulnerabilidades atuais está na chamada área de fundeio – uma extensa zona marítima onde navios ficam ancorados antes de chegar ao porto.
No entanto, Nicholas Evangelista, um dos envolvidos em um esquema que movimentou mais de R$ 4 bilhões em seis anos envolvendo a máfia italiana, aponta as dificuldades agora encontradas e sugere o porto do Paraná, como opção. Em um dos telefonemas interceptados pela Polícia Federal (PF) ele fala sobre o aperto da fiscalização no maior terminal da América Latina. “O porto de Santos está babado [vigiado]”, disse a Adson Jesuíno Cruz em 2023, numa conversa obtida pela PF, outro envolvido no esquema.
Ele foi um dos alvos da operação Novos Rumos, que mirou esquema de tráfico por portos de Santos e do Paraná. A melhor opção, disse naquela ocasião, seria o porto de Paranaguá.
O terminal de Paranaguá é o mesmo por onde membros do PGC (Primeiro Grupo Catarinense), de Santa Catarina, tentaram enviar ao menos cem quilos de cocaína em 2023. As drogas foram apreendidas, mas a PF suspeita que outras remessas passaram ilesas.
Além do Paraná, a investigação do caso cita também os portos de Navegantes, Imbituba, Itapoá, Itajaí e São Francisco do Sul, todos de Santa Catarina, e diz que os suspeitos mantinham “vultosa capacidade financeira e aparato operacional robusto” – além de toneladas de cocaína, a PF também apreendeu fuzis, pistolas, granadas e metralhadoras .50 ao cumprir mandados de busca e apreensão contra os envolvidos.
O PGC é associado do Comando Vermelho, a maior facção do Rio de Janeiro e rival do PCC, o que não impede que as três facções mantenham presença nos mesmos portos. Parece contraditório, mas há elementos que apontam para uma coexistência pacífica quando o assunto envolve interesses comuns.
“É tudo em função do business. O PCC tem sua logística, o CV a dele e ninguém pisa no calo um do outro”, diz o agente da PF e pesquisador da ONU (Organização das Nações Unidas) Christian Vianna, atual subsecretário de Integração da Segurança em Minas Gerais. Do contrário, afirma, todos sairiam prejudicados.

Sem comentários:
Enviar um comentário