Logo após a megaoperação realizada nos complexos da Penha e do Alemão, que deixou 122 mortos, as autoridades do Rio de Janeiro conseguiram manter o traficante Roberto de Souza Britto, conhecido como “Irmão Metralha”, em um presídio federal fora do estado. A medida foi adotada após investigações da Secretaria de Polícia Civil apontarem que o criminoso integra o núcleo de comando do Comando Vermelho (CV), responsável por definir as estratégias e autorizar as principais ações da facção.
Segundo relatório do setor de inteligência da Polícia Civil, o principal organismo decisório do Comando Vermelho funciona dentro da Penitenciária Gabriel Ferreira de Castilho (Bangu 3), no Complexo de Gericinó. É nesse grupo que estariam concentradas as lideranças responsáveis por deliberar sobre ataques, retaliações e diretrizes operacionais da organização criminosa.
De acordo com a investigação, Irmão Metralha faz parte dessa comissão de presos, participando ativamente das decisões estratégicas da facção e exercendo influência direta sobre as ações criminosas praticadas dentro e fora do sistema prisional.
O relatório destaca que a permanência do traficante próximo às bases de atuação do Comando Vermelho fortalece o controle exercido pela facção sobre as comunidades dominadas e dificulta o enfraquecimento de sua influência. O Ministério Público sustentou o mesmo entendimento ao defender a manutenção do criminoso no sistema penitenciário federal.
A defesa recorreu ao Supremo Tribunal Federal alegando o estado de saúde do preso e ausência de fundamentação para sua transferência ao sistema federal. No entanto, em decisão proferida em 30 de junho, o habeas corpus foi negado, mantendo a transferência.
Liderança do Complexo do Alemão
Segundo a Polícia Civil, Roberto de Souza Britto ascendeu rapidamente dentro da estrutura do Comando Vermelho até assumir a liderança do tráfico no Morro da Fazendinha, no Complexo do Alemão.
Ele possui condenações por tráfico de drogas, associação para o tráfico e homicídio qualificado, somando 50 anos, dois meses e 20 dias de prisão. Até novembro de 2025, havia cumprido pouco mais de 19 anos de pena, restando mais de 31 anos para o término da condenação.
O primeiro ingresso de Metralha no sistema penitenciário ocorreu em agosto de 2004, após uma operação do BOPE na Fazendinha. Em 2008, recebeu autorização para saída temporária, não retornou ao presídio e permaneceu foragido até novembro de 2010, quando foi recapturado durante nova operação policial no Complexo do Alemão.
Ordens criminosas mesmo atrás das grades
As investigações apontam que, mesmo preso em Bangu 3, Metralha continuou comandando o tráfico por meio de integrantes da facção.

'Biscoito'
Segundo depoimentos de policiais responsáveis pela investigação, as ordens eram transmitidas por telefone com auxílio do traficante conhecido como “Biscoito”, enquanto o criminoso Carlos Fagner de Souza Pinto, o “Papagaio”, atuava como seu “frente” na comunidade, executando e fiscalizando o cumprimento das determinações.
Entre 2011 e 2014, conforme a Justiça, Metralha também comandou a expansão das atividades do Comando Vermelho para as comunidades de Manguinhos, Mandela, Arará e outras áreas da Baixada Fluminense, utilizando diferentes integrantes da facção para ampliar o domínio territorial do grupo.
Condenado por homicídio cometido dentro do presídio
Mesmo encarcerado, Metralha foi condenado por participar da execução de Eduíno Eustáquio de Araújo Filho, o “Dudu da Rocinha”, assassinado na madrugada de 8 de julho de 2013 dentro da Penitenciária Vicente Piragibe, em Bangu.
De acordo com a sentença, as ordens para o homicídio partiram de lideranças custodiadas em Bangu 3, que suspeitavam que a vítima tivesse revelado o esconderijo de armas existente dentro da unidade prisional.
Além da fuga registrada em 2008, sua ficha disciplinar registra outras três faltas graves, incluindo prática de crime doloso durante o cumprimento da pena e posse de objeto capaz de causar lesões dentro da unidade prisional.
Relatório cita chamada de vídeo entre chefes do CV
Outro elemento citado nos autos é uma reportagem exibida em setembro de 2025 pelo programa Balanço Geral Rio, da Record TV, que mostrou uma suposta captura de tela de uma chamada coletiva realizada por aplicativo de mensagens.
Na imagem aparecem os apelidos de diversas lideranças do Comando Vermelho, entre elas Metralha, My Thor, Criam, Naldinho (Samuray), além de criminosos que estariam em liberdade, como Doca, Pezão, Abelha, Nando Bacalhau e Sombra.
Embora a defesa questione a validade da prova por supostas falhas na cadeia de custódia dos dados digitais, a Justiça entendeu que o conjunto probatório demonstra a atuação de Metralha na estrutura de comando da facção.
Ao manter o traficante em um presídio federal, a decisão conclui que seu afastamento do Rio de Janeiro dificulta a comunicação com outros líderes e subordinados do Comando Vermelho, reduzindo a capacidade de transmissão de ordens criminosas e fortalecendo a política de combate ao crime organizado.




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