sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Por dentro da rede criminosa do Pacífico: como traficantes de drogas exploram a infraestrutura pesqueira do Equador

 


A convergência entre cartéis mexicanos e organizações criminosas equatorianas evoluiu de um sistema de alianças territoriais para uma rede logística transnacional mais flexível e descentralizada. Enquanto os cartéis mexicanos antes dependiam de grupos locais para transportar cocaína da fronteira colombiana até os portos equatorianos, a cooperação agora se estende cada vez mais ao longo do corredor marítimo do Pacífico Oriental (EPAC): grupos equatorianos fornecem infraestrutura, embarcações e tripulações, ao passo que os cartéis mexicanos recebem as remessas e organizam o transporte subsequente.

“Essa rota possibilita o transporte de grandes volumes por longas distâncias sem depender de um único segmento ou operador”, disse à Diálogo Nicolás Zevallos Trigoso, diretor de Assuntos Públicos do Instituto de Criminologia do Peru. Essa flexibilidade é facilitada pela infiltração no setor pesqueiro equatoriano, que, segundo Zevallos, oferece cobertura logística aos grupos criminosos e permite a dispersão de riscos, “evitando que a queda de um operador comprometa toda a cadeia”.

As sanções anunciadas em 20 de agosto pelo Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC) do Departamento do Tesouro dos EUA ilustram essa dinâmica. Segundo o Tesouro, oito cidadãos equatorianos, 10 embarcações e sete empresas equatorianas — principalmente do setor pesqueiro — estavam envolvidos em uma rede que transportava clandestinamente milhares de quilos de cocaína por mês da América do Sul para o México, através do corredor do EPAC.


No centro da rede estão operadores ligados a Los Choneros e Los Lobos — duas das organizações criminosas mais violentas do Equador, classificadas pelos Estados Unidos como Organizações Terroristas Estrangeiras (FTOs) e Terroristas Globais Especialmente Designados (SDGTs) em setembro de 2025, e que mantêm vínculos com o Cartel de Sinaloa e o Cartel de Jalisco Nova Geração (CJNG). Segundo o Departamento do Tesouro, a rede utilizava frotas pesqueiras na costa do Equador para fornecer combustível, alimentos e assistência em alto-mar a lanchas rápidas (*go-fast vessels* ou GFVs) com destino ao México. Algumas dessas embarcações também detectavam e monitoravam navios das forças de segurança, enquanto pelo menos uma foi utilizada para o transporte de cocaína.

A ação do OFAC acrescenta uma dimensão financeira à pressão operacional exercida sobre essas redes. A abordagem vai além de visar seus líderes, buscando desmantelar simultaneamente os elos que viabilizam seu funcionamento — operadores, empresas, embarcações e outros facilitadores —, ao mesmo tempo em que complementa operações de interdição marítima e o compartilhamento de inteligência.

A operação integra um esforço interinstitucional coordenado de combate ao narcotráfico que envolve a *Homeland Security Task Force-Tampa*, a *Joint Interagency Task Force South* (JIATF-S), a *Drug Enforcement Administration* (DEA) dos EUA, a Guarda Nacional da Flórida, o Comando Sul dos EUA (SOUTHCOM), o Escritório de Inteligência Naval e a Guarda Costeira dos EUA. Esses esforços foram reforçados em agosto de 2025 com o lançamento da Operação *Pacific Viper*, que mobilizou navios de patrulha, aeronaves e equipes táticas no Pacífico Oriental e resultou na apreensão de mais de 112 toneladas métricas de cocaína até junho de 2026. Em dezembro de 2025, uma operação coordenada entre o Equador e os Estados Unidos também apreendeu 4,6 toneladas métricas de drogas no mar.

A pesca como infraestrutura para o tráfico de drogas


A rede identificada pelo OFAC ilustra uma dinâmica cada vez mais consolidada: a integração de atividades criminosas à economia legal para transformar sua infraestrutura, recursos e capacidades em ativos logísticos para o tráfico de drogas. Nesse modelo, a pesca, segundo Zevallos, "não é apenas um disfarce, mas uma infraestrutura operacional" que permite às redes criminosas reduzir custos, riscos e exposição. Uma frota legal proporciona o que o tráfico marítimo de drogas não consegue criar sem levantar suspeitas: licenças de navegação, registros, rotas autorizadas, instalações portuárias e infraestrutura de cadeia de frio.

A estrutura é compartimentada em vários níveis, com funções distintas, porém interconectadas. No nível operacional, encontram-se os coordenadores que conectam organizações criminosas a redes de transporte e gerenciam movimentações em larga escala. Segundo o Departamento do Tesouro, Julio Javier Mero Franco atuava em nome do grupo Los Choneros e coordenava "a movimentação de aproximadamente 30 a 40 toneladas de cocaína por mês do Equador para a América Central e o México", enquanto Milton Edixon Martínez Mendoza estava ligado aos grupos Los Lobos e Los Choneros e coordenava o transporte de milhares de quilos de cocaína a bordo de embarcações de pesca de grande porte (GFVs).

O segundo nível consiste na infraestrutura logística que viabiliza o transporte de drogas. De acordo com o Tesouro, empresas de pesca como a Arcasdenoe S.A. — de propriedade de Alfonso Mero Mero e de seus filhos, Roberth Alfonso Mero Arcentales e Edwar Alexis Mero Arcentales — forneciam essa infraestrutura. A OFAC informou que a frota da empresa estava envolvida no tráfico de milhares de quilos de cocaína da América do Sul para o México e, com acesso a "combustível subsidiado pelo governo", fornecia às embarcações de pesca serviços de "reabastecimento, alimentação e assistência médica", além de detectar e monitorar embarcações das forças de segurança. O Tesouro também afirmou que Edwar Mero Arcentales estava diretamente envolvido no tráfico de drogas em coordenação com o grupo Los Choneros.

O terceiro nível envolve a capacidade da rede de diversificar suas atividades. Jimmy Leonidas Alarcón Holguín, um dos indivíduos sancionados, possuía ou controlava cinco empresas de pesca e outra empresa do ramo de materiais de construção. Segundo Zevallos, a presença em múltiplos setores pode aumentar a capacidade das organizações criminosas de ocultar e lavar recursos ilícitos.

Ao visar simultaneamente esses diferentes componentes, as sanções buscam interromper não apenas a movimentação de recursos financeiros, mas também o acesso das organizações criminosas às empresas, embarcações e serviços que sustentam suas operações.

Embarcações clonadas

A exploração criminosa do setor pesqueiro vai além da rede identificada pela OFAC. Autoridades e investigações equatorianas também documentaram o uso de embarcações com registro fraudulento ou clonadas — conhecidas localmente como "embarcações fantasma" —, as quais podem facilitar atividades ilícitas e o acesso indevido a recursos destinados a apoiar a indústria pesqueira, como o combustível subsidiado.

Uma das formas mais sofisticadas dessa manipulação é a clonagem de embarcações. “A clonagem nos mostra que o crime organizado não precisa mais construir uma infraestrutura paralela: basta falsificar a identidade administrativa de uma infraestrutura legítima já existente”, disse Zevallos. “A vantagem é dupla: a embarcação opera com a documentação de um barco real e, quando é interceptada, a responsabilidade criminal fica diluída entre duas identidades registradas.”


Um dos casos mais notáveis ​​envolveu a *Rosa Isabel*, apreendida em outubro de 2025 juntamente com a *Siempre Nelly*, nas proximidades das Ilhas Galápagos. A ação ocorreu após o compartilhamento de informações de inteligência entre autoridades equatorianas e norte-americanas, motivado pela descoberta de oito pacotes contendo armas em alto-mar. As inspeções revelaram diversas irregularidades: a autorização de navegação da *Rosa Isabel* estava vencida, o capitão não estava registrado e havia sete tripulantes a bordo sem autorização. Constatou-se também que a embarcação auxiliar *El Rebelde* havia sido clonada. Já a *Siempre Nelly* transportava quase 9.000 litros de combustível não declarado.

Investigações jornalísticas destacaram como o combustível subsidiado representa um ativo estratégico para a cadeia de suprimentos criminosa: um recurso público destinado à indústria pesqueira pode ser desviado para redes ilícitas a fim de sustentar suas operações marítimas. A clonagem pode facilitar esse esquema ao permitir que uma embarcação utilize a identidade e a documentação de um barco de pesca legítimo para operar sob uma aparência de legalidade e obter acesso a recursos destinados ao setor.

Governança criminosa

A infiltração no setor pesqueiro vai além da exploração de seus recursos e infraestrutura. Ela também permite que organizações criminosas expandam seu controle sobre aqueles que trabalham na indústria e sobre as comunidades costeiras que dela dependem. Esse controle territorial lhes proporciona não apenas recursos e mão de obra, mas também acesso a informações e a uma rede de apoio essencial para operações de tráfico marítimo de drogas.

As chamadas *vacunas* — pagamentos de proteção extorquidos periodicamente dos pescadores — são uma das principais ferramentas utilizadas para exercer esse controle. Segundo o portal *Primicias*, pescadores de San Lorenzo, em Manabí, relataram pagar aproximadamente US$ 140 por embarcação a cada mês, totalizando uma estimativa de US$ 168.000 anuais. A Federação Equatoriana de Organizações de Pescadores também estima que quase todos os cerca de 60.000 pescadores artesanais de Manabí estejam, de alguma forma, expostos à atividade criminosa. A extorsão torna-se, assim, um instrumento para controlar a atividade econômica e a mobilidade, determinando quem pode trabalhar, onde podem navegar e quais rotas podem utilizar.

A pressão criminosa sobre as comunidades pesqueiras também facilita o recrutamento de pessoas com habilidades essenciais para o tráfico marítimo de drogas. Pescadores e tripulantes conhecem as rotas, as condições do mar e a operação de embarcações — capacidades que organizações criminosas podem explorar para transportar carregamentos e sustentar suas redes logísticas.

Essa dinâmica já se expandiu para além das fronteiras do Equador. "Grupos criminosos equatorianos extorquem pescadores artesanais no norte do Peru em coordenação com gangues locais, enquanto suprimentos e equipamentos apreendidos dessas embarcações acabam alimentando a logística do tráfico marítimo de drogas", afirmou Zevallos.

O risco, portanto, é a expansão progressiva — para além das fronteiras equatorianas — de um modelo de governança criminosa baseado na infiltração em economias locais e no controle de comunidades. O caso revelado pela OFAC demonstra que o enfrentamento dessas redes exige ir além da apreensão de carregamentos de drogas: é preciso identificar e desmantelar as empresas, embarcações, fluxos financeiros e estruturas logísticas que sustentam o tráfico, ao mesmo tempo em que se fortalece a cooperação e o compartilhamento de inteligência entre os países afetados por essas rotas.

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