Uma sequência de homicídios, tentativas de assassinato e ataques com armas de grosso calibre expõe a guerra travada entre Comando Vermelho e Terceiro Comando Puro pelo controle de comunidades de Resende, no Sul Fluminense.
O Bairro Surubi aparece como um dos principais pontos da disputa, com uma sucessão de mortes registrada desde julho.
Os episódios mostram uma escalada de violência que envolve não apenas execuções, mas também monitoramento de território, vigilância de moradores, utilização de câmeras e drones e ataques com fuzis.
A sequência começou em 7 de julho de 2026, no distrito de Engenheiro Passos, área apontada como controlada pelo Comando Vermelho.
O traficante conhecido como Daniel foi vítima de uma tentativa de homicídio a tiros.
As circunstâncias levantaram suspeitas de possível relação com a disputa entre grupos criminosos.
No dia seguinte, 8 de julho, a violência chegou ao Surubi. Daniel foi assassinado a tiros.
O bairro, anteriormente associado ao domínio do Terceiro Comando Puro, passou a ser alvo da disputa com o Comando Vermelho.
Dois dias depois, em 10 de julho, Kennedy Augusto foi executado no próprio Surubi. A cena do crime revelou a dimensão do poder de fogo utilizado: foram recolhidos estojos deflagrados de .40, 9mm, 5,56mm e 7,62mm. A presença de munições de 5,56mm e 7,62mm é compatível com o emprego de armas longas, incluindo fuzis.
A violência não parou.
Em 17 de julho, duas mulheres foram assassinadas no Surubi com múltiplos disparos. Novamente, a perícia encontrou estojos de 5,56mm e 7,62mm, além de drogas e uma balança de precisão.
Poucos dias depois, em 26 de julho, outro ataque ocorreu no Bairro Fazenda da Barra II, área que anteriormente era associada ao Terceiro Comando Puro e que, segundo as investigações, passou a ser dominada pelo Comando Vermelho. Um ataque a tiros em um bar terminou com a morte de um homem e deixou outro ferido.
Em 1º de agosto, mais um ataque foi registrado no Bairro Alto dos Passos. Rhyan de Nome e Carolina Rino de Andrade foram vítimas de tentativa de homicídio, enquanto uma terceira pessoa também foi atingida.
Segundo o relato investigativo, os criminosos teriam gritado “Terceiro Comando” durante a ação.
A lista de mortos relacionados ao período inclui ainda Paulo Roberto, conhecido como “Coroa” e apontado como uma importante liderança do Terceiro Comando Puro, além de Alfredo e Robson Apolinario e mais um homem.
Monitoramento do território
A investigação da Polícia Militar ajuda a revelar como a disputa ultrapassou os confrontos armados e passou a envolver uma estrutura de vigilância e coleta de informações dentro das áreas disputadas.
O Serviço Reservado da PMERJ monitorou um Fiat Argo que, segundo a investigação, era utilizado em apoio a integrantes do Comando Vermelho e estaria relacionado a homicídios praticados no contexto da disputa entre facções.
O veículo foi localizado nas proximidades do Bairro Surubi, onde residia Kennedy Augusto, assassinado em 10 de julho.
Durante um monitoramento aéreo, policiais observaram uma mulher desembarcar do carro e filmar uma residência que possuía câmeras de segurança. Segundo a investigação, posteriormente o morador teria sido obrigado a retirar os equipamentos.
Na sequência, os policiais abordaram o veículo em frente à residência de Kennedy.
Um homem se apresentou como proprietário do automóvel. Dentro do imóvel, os agentes encontraram três suspeitos , que, segundo o relato policial, tentou se esconder e carregava uma pequena quantidade de maconha.
Também foram apreendidas duas munições calibre 9mm, três câmeras de vigilância, um drone e quatro telefones celulares.
Para a investigação, o material encontrado e a dinâmica observada indicam uma estrutura destinada ao monitoramento territorial, acompanhamento da movimentação policial e vigilância das comunidades.
Segundo a denúncia, os investigados teriam fornecido informações e apoio ao Comando Vermelho, contribuindo para a manutenção do domínio territorial da organização criminosa.
O Ministério Público sustenta que os denunciados mantinham vínculo estável e permanente com a facção e que suas atividades favoreciam o domínio exercido pelo grupo.
O caso foi enquadrado nas disposições da Lei nº 15.358/2026, além do artigo 16 do Estatuto do Desarmamento, conforme descrito na denúncia.
Em Resende, a sequência de episódios registrados desde julho expõe uma disputa que envolve território, mortes, ataques a tiros, armas de grosso calibre e uma estrutura de vigilância destinada a acompanhar quem entra, quem sai e como as forças de segurança atuam nas áreas sob disputa.


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