Mesmo preso desde 2011 e sem exercer qualquer atividade lícita remunerada desde então, Antônio Francisco Bonfim Lopes, o Nem da Rocinha, continua dispondo de um vasto aporte financeiro e de uma estrutura jurídica particular que chama atenção: somente no último ano, 33 advogados prestaram atendimento ao criminoso. A informação consta de ofício da Diretoria da Polícia Penal Federal e foi utilizada pela Justiça como um dos elementos concretos para sustentar a permanência do apenado no sistema penitenciário federal.
A própria situação financeira de Nem é apontada como indicativo de que ele continua integrado à estrutura do crime organizado. Segundo o documento, não haveria explicação lícita para que um homem encarcerado há 15 anos, sem atividade remunerada conhecida nesse período, disponha de recursos suficientes para custear uma extensa assistência jurídica particular.
Mas o dinheiro disponível e a estrutura de defesa não são os únicos elementos considerados pela Justiça. Nem é apontado como integrante da alta cúpula do Terceiro Comando Puro (TCP), com histórico de influência sobre uma extensa rede de comunidades do Rio de Janeiro, entre elas Babilônia e Chapéu Mangueira, no Leme; Complexo do São Carlos, no Catumbi; Morro dos Macacos, em Vila Isabel; Parque Alegria, no Caju; áreas do Complexo da Maré; Vigário Geral; Serrinha, em Madureira; Complexo de Israel, em Cordovil; Acari; Batman, em Realengo; e Vila Aliança, em Bangu.
A decisão judicial destaca justamente a influência exercida pelo criminoso no ambiente das organizações criminosas e seu elevado grau de periculosidade como fundamentos para a manutenção da prisão federal.
O dado considerado mais relevante para afastar a tese de que se trata apenas de um criminoso que perdeu sua capacidade de articulação por estar atrás das grades está no Extrato de Inteligência elaborado em agosto de 2025 pela Secretaria de Estado de Polícia Civil.
O documento aponta que, mesmo recolhido em presídio federal desde 2011, Nem continuou exercendo liderança na organização criminosa Amigos dos Amigos (ADA) até 2017. Naquele ano, após perder o controle da Rocinha para Rogério Avelino da Silva, o Rogério 157, Nem teria migrado para o Terceiro Comando Puro com o objetivo de recuperar o domínio da comunidade.
E não teria se limitado a uma mudança de facção.
Segundo o relatório de inteligência, Nem teria comandado de dentro de um presídio federal, localizado em outro Estado, a articulação para a retomada da Rocinha, dando origem à chamada Guerra da Rocinha, conflito que terminou com 20 mortes.
O episódio é apresentado pela Justiça como uma demonstração concreta de que a prisão não impediu Nem de exercer influência sobre integrantes do crime organizado. Ou seja, mesmo isolado fisicamente do território que pretendia controlar, o criminoso teria conseguido interferir na dinâmica da disputa pelo domínio da comunidade.
A atuação atribuída a Nem também aparece em relatório técnico da Divisão de Inteligência do Ministério Público. Em razão desses fatos, ele foi denunciado no processo nº 0246827-53.2018.8.19.0001, apontado como líder do tráfico de drogas da Rocinha e acusado de transmitir ordens por intermédio de sua filha, Eduarda dos Santos Lopes, também denunciada no processo.
Outro elemento considerado pela Justiça é que Nem permanece atualmente custodiado em Catanduvas junto a presos ligados ao próprio TCP, circunstância considerada relevante para a avaliação de sua permanência no sistema penitenciário federal.
A Justiça também rejeitou a interpretação de que a renovação da permanência no presídio federal seria baseada apenas na repetição de argumentos antigos. Para o tribunal, existem elementos objetivos e atuais de inteligência que indicariam a manutenção de vínculos e influência sobre a organização criminosa.
O próprio Nem, por sua vez, reafirmou seu interesse em permanecer em Catanduvas e não retornar ao Estado de origem. Segundo consta dos autos, ele sustenta que, no presídio federal, estaria “blindado de perseguições políticas”.
A decisão, entretanto, considera que a manifestação do próprio preso não é suficiente para afastar os elementos de segurança pública reunidos contra seu retorno.
Diante desse conjunto de informações — a permanência de recursos financeiros à sua disposição, a extensa estrutura de assistência jurídica particular, o histórico de liderança criminosa, a influência atribuída ao preso mesmo durante o encarceramento federal, sua ligação com o TCP, a atuação apontada na Guerra da Rocinha e a permanência junto a integrantes da facção em Catanduvas — a Justiça manteve a decisão de permanência no sistema penitenciário federal, fundamentando-a na necessidade de preservação da ordem pública e da segurança pública do Estado

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