Ronaldo Henrique Souza Peixoto, de apenas 14 anos, foi submetido a uma sequência de agressões que incluiu queimaduras com plástico derretido, golpes com pedregulho, ferimentos provocados por faca e disparos efetuados próximos aos seus pés antes de ser executado por criminosos do Comando Vermelho na comunidade César Maia, na Zona Sudoeste do Rio. O corpo do adolescente foi posteriormente esquartejado e encontrado em um rio.
Os detalhes da violência aparecem nos elementos reunidos na investigação e analisados pela Justiça. Segundo os relatos constantes dos autos, Ronaldo estava acompanhado de outros dois adolescentes quando os três foram capturados e conduzidos para dentro da comunidade.
Depois de tentarem retornar, os adolescentes foram novamente capturados. Eles tiveram os aparelhos celulares inspecionados pelos criminosos e foram levados para um terreno próximo a uma criação de porcos. No local, havia cerca de 15 homens, segundo declaração prestada por K, um dos sobreviventes, próxima aos fatos e antes mesmo da identificação nominal dos suspeitos. Foi nesse terreno que ocorreram as agressões. Ronaldo sofreu golpes com pedregulho, queimaduras provocadas por plástico derretido e ferimentos com faca. Os relatos também apontam que disparos foram efetuados próximos aos pés do adolescente. B.S.O também foi submetido às queimaduras com plástico derretido e a agressões. Posteriormente, os três adolescentes foram levados para um segundo local, próximo a uma ponte.
Apenas dois sobreviveram.
Kauã e Bernardo foram liberados, enquanto Ronaldo permaneceu nas mãos dos criminosos. Isabela confirmou ter visto os três adolescentes sendo reconduzidos coercitivamente para o interior da comunidade. O corpo de Ronaldo acabou sendo encontrado esquartejado em um rio.
SUSPEITA SURGIU A PARTIR DE FOTO NO CELULAR
Segundo os elementos descritos no processo, a captura dos adolescentes ocorreu depois que criminosos tiveram acesso aos aparelhos celulares das vítimas. A investigação aponta que Ronaldo teria sido alvo dos traficantes após ser encontrada em seu celular uma fotografia em que fazia com os dedos o sinal de “três”.
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O gesto teria sido interpretado pelos criminosos como uma referência ao Terceiro Comando Puro, facção rival do Comando Vermelho. Ronaldo, segundo as informações apresentadas na acusação, não tinha envolvimento com o tráfico. O adolescente sonhava em ser mecânico e praticava muay thai.
DEPOIMENTOS DESCREVERAM A TORTURA
A acusação contra Diogo Paixão Barbosa, um dos envolvidos, não está baseada exclusivamente nos reconhecimentos fotográficos.
Kauã já havia relatado, antes da identificação nominal dos suspeitos, a condução das vítimas, o terreno próximo à criação de porcos, a presença de aproximadamente 15 homens, as queimaduras com plástico derretido, os disparos próximos aos pés de Ronaldo, os ferimentos provocados por faca e a transferência para um segundo local.
Posteriormente, Kauã e Bernardo reconheceram Diogo e atribuíram a ele participação em atos determinados de agressão e tortura contra as vítimas.
O exame de corpo de delito realizado em Bernardo constatou queimaduras e lesões produzidas por ação contundente, elemento que, segundo a Justiça, corrobora a narrativa apresentada pelos sobreviventes.
Os depoimentos de B e K também convergem em pontos considerados centrais pela acusação: a condução para a comunidade, a captura quando tentavam retornar, a inspeção dos aparelhos celulares, o transporte para o terreno próximo à criação de porcos, a presença do grupo armado, as torturas, a transferência para outro local e a liberação apenas dos dois sobreviventes.
GRUPO ARMADO TINHA ESTRUTURA PARA DECIDIR O DESTINO DAS VÍTIMAS
Os autos também apresentam informações sobre o funcionamento do grupo criminoso que dominava a comunidade César Maia.
Relatórios de inteligência mencionados no processo apontam a existência de uma estrutura hierárquica e elementos relacionados à própria dinâmica do crime, como a rápida mobilização de numerosos agentes, o emprego de armas, motocicletas e automóvel, a condução das vítimas para locais controlados, a divisão de tarefas e a presença de seguranças.
A investigação aponta ainda a atuação de “VT” como liderança e o contato com “Doca” para a palavra final sobre o destino das vítimas.
Também são mencionadas ameaças dirigidas a moradores e testemunhas.
CINCO INTEGRANTES DO CV VIRARAM RÉUS
Cinco integrantes do Comando Vermelho passaram a responder pelo caso na Justiça, entre eles Edgar Alves de Andrade, o “Doca”, apontado como uma das principais lideranças da facção.
Quatro executores do crime já foram presos pela Polícia Civil. Doca permanece foragido da Justiça.
A acusação atribui a Diogo Paixão Barbosa participação na captura e condução dos adolescentes, nas agressões contra Ronaldo, nos golpes desferidos com pedregulho e no emprego de plástico derretido contra Ronaldo e Bernardo.
A Justiça entendeu que há elementos suficientes para que a acusação prossiga e seja analisada durante a instrução do processo.
O caso, porém, ainda será submetido à fase de produção de provas. Eventuais responsabilidades individuais deverão ser definidas ao longo da ação penal.
Para Ronaldo, entretanto, a violência terminou antes que pudesse haver qualquer defesa: aos 14 anos, o adolescente foi submetido a queimaduras com plástico derretido, golpes de pedregulho, ferimentos de faca e disparos próximos aos pés, antes de ser executado e ter o corpo esquartejado.


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