Um dos policiais militares investigados por supostamente fornecer apoio armado a uma quadrilha ligada ao Comando Vermelho, apontada pelo Ministério Público do Rio como responsável por trazer toneladas de drogas de São Paulo para o estado, já respondeu a uma acusação de cobrança de propina durante uma abordagem policial. Segundo a denúncia, ele e outro PM teriam exigido R$ 3 mil para não levar à delegacia um motorista que apresentava irregularidades na documentação do veículo e suspeita de falsificação da carteira de habilitação.
O episódio, no entanto, terminou com a absolvição dos policiais. Na decisão, a Justiça considerou que havia contradições entre os depoimentos e que não existiam provas suficientes para sustentar uma condenação.
Segundo o relato de J.I.L.N , ele fazia uma entrega de mercadorias quando foi abordado pela guarnição. Após conferir seus documentos e os do veículo da empresa, um dos policiais teria afirmado que sua carteira de habilitação apresentava divergências e poderia ser falsa.
O motorista afirmou que os PMs disseram que o levariam para a delegacia e que ele teria de pagar aproximadamente R$ 5 mil de fiança. Em seguida, ainda segundo seu depoimento, os policiais teriam oferecido uma alternativa: se pagasse R$ 3 mil à guarnição, seria liberado no próprio local.
José Inácio disse que respondeu não ter o dinheiro e que os policiais poderiam levá-lo à delegacia. Ele então pediu autorização para telefonar ao patrão e avisar que a entrega seria atrasada. A ligação, segundo seu relato, foi para J.R.L, major da PM e apontado inicialmente como sócio da empresa.
Ainda de acordo com a vítima, o major pediu para falar com os policiais, mas eles se recusaram. Louzada teria informado que iria até o local. Antes, porém, os PMs conduziram o motorista à delegacia.
O caso ganhou novos contornos durante a instrução. José Inácio afirmou que inicialmente não relatou a suposta cobrança de R$ 3 mil à Polícia Civil porque considerou o episódio irrelevante. Depois, contou o ocorrido ao major, que teria dito que ele deveria ter mencionado a exigência.
Em outro momento, porém, a testemunha apresentou versão diferente e declarou que havia contado ao major sobre a cobrança antes de prestar depoimento, afirmando que o oficial o teria orientado a não mencionar o pedido de dinheiro.
O próprio major também apresentou versões diferentes. Em juízo, afirmou que só tomou conhecimento da suposta exigência indevida quando José Inácio prestou depoimento na delegacia. Já em depoimento anterior, teria declarado que sabia da cobrança e que orientou o motorista a não mencioná-la porque entendia que o caso deveria ser resolvido administrativamente dentro da própria Polícia Militar.
O major teria justificado a orientação com a preocupação de evitar que a corporação fosse exposta perante a Polícia Civil.
A versão também foi confrontada pelo oficial Otniel Campos da Silva, que integrava a Supervisão de Oficial no dia do episódio. Ele afirmou que estava na 44ª DP quando os policiais chegaram com o motorista e relataram a suspeita de falsificação da CNH.
Otniel contou ainda que Louzada apareceu na delegacia dizendo ser policial militar e que aparentava querer utilizar a influência de seu posto na situação. Segundo o oficial, a ocorrência, porém, deveria seguir seu curso normal.
Otniel declarou que não ouviu qualquer menção à suposta cobrança dos R$ 3 mil naquele momento e que somente tomou conhecimento da acusação posteriormente, durante o Inquérito Policial Militar.
Os PMs Diego Portella Batista e Fábio Machado Bastos negaram a cobrança. Segundo a versão apresentada pelos dois, eles apenas identificaram divergências na carteira de habilitação do motorista e decidiram conduzi-lo à delegacia para verificar se o documento era falso. Como o equipamento utilizado para a consulta estava sem conexão na região, a confirmação teria de ser feita na unidade policial.
Os policiais também afirmaram que o motorista foi autorizado a telefonar para o responsável pela empresa e que, durante a ligação, informou que seu patrão era major da PM. Na delegacia, segundo os acusados, Louzada já os aguardava e teria pedido que eles “fizessem por menos”, o que foi recusado.
Ao analisar o caso, a Justiça concluiu que, embora a acusação da vítima merecesse consideração, as demais provas não apresentavam convergência suficiente para confirmar a exigência de dinheiro.
A decisão destacou as contradições existentes entre os depoimentos e considerou que o comportamento do major também gerava dúvidas sobre a dinâmica narrada pela acusação. Diante da ausência de provas consideradas suficientes, os policiais foram absolvidos da acusação de exigência da vantagem indevida.
Agora, anos depois, um dos PMs envolvidos naquele episódio aparece novamente no radar do Ministério Público, desta vez em uma investigação muito mais ampla sobre uma quadrilha ligada ao Comando Vermelho acusada de transportar grandes carregamentos de drogas de São Paulo para o Rio e que teria contado com apoio de policiais militares.

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